A Morte do Indivíduo

O Homem é uma invenção cuja data recente a arqueologia de nosso pensamento mostra facilmente. E talvez seu fim próximo. - Michel Foucault

Desde o pensamento filosófico grego antigo, já se debate se a natureza é estável ou um processo em constante transformação, a exemplo da ontologia de Heráclito e Parmênides. 

Parto aqui de um pressuposto materialista: a natureza não aponta para nada além de si mesma, é a realidade máxima em operação. Eu considero esse como o único ponto possível a se partir qualquer reflexão que não queira distorcer a realidade.

Tudo que existe é natureza, incluindo o imaginário, o simbólico e o fantástico. Esses não são domínios separados do real, mas produções materiais que possuem rastros históricos e psicológicos e revelam como indivíduos e sociedades compreendem a si mesmos e o mundo.

Um ponto em comum entre a perspectiva ecocentrada de muitos povos originários e a ciência moderna é a constatação expressa por Lavoisier: “Nada se cria, tudo se transforma”. Essa é uma constatação física de quando Lavoisier descreve a Lei da Conservação das Massas, no entanto, ela aponta algo claro, nada é descartado e nada existe fora do fluxo natural.

Essa perspectiva destacada é ainda mais interessante quando comparada a cosmogonias tupi que reconhecem a vida (animus) em diversos "objetos" (sob um prisma ocidental) na medida que eles possuem uma descendência em comum. 

Algo que, sob uma análise materialista, não é incorreto, de fato o que compõe os humanos não é tão diferente do que compõe as plantas, dos demais animais, rios, montanhas... E mais, tudo isso compartilha um mesmo planeta e possui um diferente valor: de ancestral e sábio para povos tupi, ou de mero recurso a ser explorado ao seu próprio modo pela perspectiva capitalocêntricaOu seja, o Ser não é essencial, mas socialmente produzido, cada vez mais coisificado pela lógica do capital.

É interessante que a ciência moderna, em grande medida, nasce do paradigma reducionista, que considera que a natureza é composta por substâncias singulares que são "como um mecanismo de um relógio", como exemplifica Descartes, e não no paradigma holista, que parte do pressuposto que "o todo é maior que a soma das partes" e assim nada existe sozinho, mas existe em conjunto como um fio numa teia maior.

O paradigma reducionista tem seu valor: ele é eficaz para isolar, enquadrar e analisar determinados fenômenos. No entanto, na forma como foi constituído historicamente, tornou-se base fundamental do desencantamento do mundo moderno. A partir dele se consolida a figura de um indivíduo fechado em si mesmo, um sujeito que se percebe separado da natureza e com o dever de nomeá-la, medi-la e explorá-la racionalmente, como se fosse um mundo que lhe foi dado pelo Deus cristão patriarcal, e não um mundo do qual ele faz parte.

A chamada história dos grandes sujeitos atua justamente a partir dessa forma de análise, perguntando-se “quem foram os atores?” e esperando sempre indivíduos que tomam decisões de maneira isolada.

Essa visão de mundo pode ser (e vem sendo) superada, à medida que a própria análise científica reconhece os limites desse ideário construído socialmente.

Sob uma perspectiva existencial, segundo António Damásio, o eu se aproxima muito mais daquilo que David Hume chamaria de “feixe”: um conjunto dinâmico de experiências, memórias e processos corporais, e não uma substância fixa ou a suposta “alma da máquina”. Afinal, tal alma não existe e a máquina seriamos nós... né?

Não é que não exista um ser, mas que ele não existe como substância fixa. Em Deleuze e Guattari, o ser é devir: um rizoma produzido por relações e processos. Assim, o indivíduo não se esvazia; ele se torna ainda mais rico, pois sua existência passa a ser entendida como algo que se constrói na composição com o mundo e com os outros e sua agência é ainda mais valorizada.

Sob uma perspectiva histórica, de Annales à Hobsbawm, de Foucault à Thompson, é praticamente inexistente o historiador que sustente que a história não seja uma teia que transcende o presente e indivíduos.

Um exercício mental ajuda a evidenciar a fragilidade da noção de um eu substancial: imagine uma máquina capaz de clonar perfeitamente um indivíduo: corpo, cérebro, memórias e afins. Nesse cenário, a distinção entre original e cópia se dissolve, pois ambos seriam igualmente reais até o momento da duplicação. O que ocorre não é a criação de um “eu falso”, mas a bifurcação de um mesmo processo de individuação, quase como se fosse um arquivo de computador copiado e colado. Mas claro, a partir dali, cada corpo passa a produzir sua própria diferença no tempo. 

Esse experimento não aponta para uma falha da técnica, mas para o fracasso de uma metafísica que insiste em identidades fixas onde há apenas devir. Ele também escancara como um horizonte pós-humanista e cyberpunk bagunça aquilo que a modernidade tomou como sólido: o mito do sujeito racional, autônomo e senhor da natureza. Quem é esse ser que, em nome da razão, se arroga o direito de modificar a sua própria natureza? Ele ainda é um ser? Ou vira objeto? O horror existencial não nasce da tecnologia, mas da intenção e do poder concentrado nas mãos de quem pode operá-la, sobretudo em um mundo que ainda se recusa a abandonar suas estruturas coloniais, capitalistas e mecanicistas.

Mas não é preciso sustentar uma ontologia baseada no indivíduo como substância. Grande parte das tradições milenares do leste asiático dedicou-se justamente a desconstruir a ideia de um eu fixo e autônomo. Em especial, chamo a atenção do zen budismo que embora historicamente tenha pressupostos metafísicos como nirvana e karma, sua descrição da experiência e suas práticas de atenção, kenshō são uma das coisas mais incríveis para a contemporaneidade, chamando a atenção de inúmeros autores que vão desde Byung-Chul Han a Sam Harris.

O universo pode ser compreendido como uma totalidade relacional, na qual a diferença emerge do encontro, e não de indivíduos isolados. O Caos que na mitologia grega representa não a desordem, mas a abertura que possibilita a diferença. Assim como o Big Bang que cria o espaço-tempo e, desse jeito, tornou possível a multiplicidade de corpos, todos oriundos de um mesmo processo que se faz e refaz.

Não há individualidade nata, e muito menos parada, mas processos contínuos de individuação, sempre relacionais e históricos. Como territórios que são ocupados, o que chamamos de indivíduo é um recorte provisório dentro de uma trama maior de relações. O capitalismo, ao naturalizar o indivíduo como unidade isolada e autossuficiente por meio de uma lógica mecanicista, impõe sua forma específica como universal.

Quem ensina o indivíduo o seu nome? Quem ensina o que é nome? Quem ensina ele a falar? Quem alimenta ele para que ele não morra? Se o indivíduo realmente fosse algo essencial em si mesmo isso tudo não teria importância. 

O sistema atual se baseia nessa noção falha de essência: valoriza o bilionário como totalidade da empresa, mas não os trabalhadores que efetivamente a fazem funcionar. No entanto, uma mudança real dessa crença só poderia ocorrer a partir de uma transformação da sociedade que a produz.

Penso que, ao entender a historicidade dessas categorias, torna-se possível compreender a opressão e sua reprodução material no cotidiano.

Em síntese, o que defendo não é a morte do indivíduo, ele já está morto desde sua concepção, mas isso não nos impediu de viver com base nesse mito. 

O que defendo é simples: o materialismo-histórico-dialético. Defendo que o método analítico de Engels e Marx foi tão revolucionário que até hoje não é totalmente compreendido. Tudo isso que escrevi, mesmo mobilizando outros autores contemporâneos, já foi entendido, analisado e contemplado por eles e, mais do que isso, com uma práxis indicada.

Não há essências para além daquelas historicamente fabricadas. Nada existe pronto ou concluído: tudo está em composição. Mesmo os mortos, atuam como fantasmas de suas memórias e ditam como agimos no nosso dia a dia. 

Cabe a nós ditarmos o fim que levam as coisas e qualquer negativa sobre isso é uma má-fé e uma negação de que essas formas de limitações são construídas históricas e, portanto, passíveis de mudança.  

Espero que isso tudo lhe dê força para mudar. Por algum motivo, saber que não existo sempre me faz querer existir ainda mais.

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