Feminino(s), Masculino(s) e mais
Masculino e Feminino
Isso me cansa! E mais, me sufoca, me persegue.
Você certamente já deve ter visto associações do tipo
"O Sol é masculino.
A Lua é feminina.
O homem sai pra trabalhar, e a mulher faz bolo caseiro".
Bom... pelo menos é isso que o conservadorismo quer que você pense.
Mesmo se isso fosse verdade (o que não é, é mais um preconceito sobre a natureza), não interessa se o "macho ideal" supostamente caça e a "fêmea ideal" supostamente não. Isso em nada deveria afetar a vida social.
Mas vamos desconstruir um tanto disso.
Quando nós olhamos pra história, vemos que essa ideia, "macho é assim, fêmea é assado", sempre foi só isso: uma ideia.
E uma ideia que sempre vai mudando conforme o lugar e o tempo.
O Sol às vezes é tratado como o arquétipo máximo da masculinidade: força, coragem, penetração...
Mas isso é só por um olhar possível.... Um olhar colonizado e patriarcal.
O Sol também pode ser visto como algo delicado, fértil ou destrutivo.
Isso depende muito mais do que você quer ver do que de fato do "Astro Rei".
É nós que colocamos formas na natureza para limitá-la e não o contrário.
Como já diria Marx:
"As ideias dominantes são as ideias da classe dominante."
Assim, mesmo que os discursos sobre gênero pareçam naturais, eles são, na verdade, construções da classe dominante.
E como toda construção, precisam ser mantidos, forçados, reforçados e repetidos a exaustão ao longo do tempo.
Dizer que trabalhar fora é coisa de homem
Que cuidar da casa é coisa de mulher...
É se limitar a uma forma de enquadrar o mundo
Forma essa que interessa ao próprio poder dominante
Como aponta Silvia Federici em Calibã e a Bruxa, o capitalismo pode não ter criado os gêneros binários, mas certamente depende deles e, em particular, da exploração do feminino para sua manutenção.
E sinceramente?
Eu quero na verdade criar uma rota de fuga desse sistema
Eu preciso.
Desde que li "Androids sonham ovelhas elétricas" sempre me assombrou essa ânsia em classificar, ainda mais quando se trata de classificar quem tem o direito para "ser humano" ou não.
Isso me assusta porque eu existo fora da binariedade de gênero.
Na verdade, eu realmente acredito que todas as pessoas também deveriam fugir.
Não existe um só jeito de ser homem ou mulher
E na verdade se fôssemos fazer uma análise profunda a isso, inevitavelmente encontraríamos vácuo, não existência.
No pensamento tradicional chinês existe um conceito profundamente dialético, o yin-yang.
Sob um viés ocidental bem simplório é dito coisas como: O homem é yang e a mulher é yin. Ou mesmo: o bem é yang e o mal é yin.
No entanto, isso não está realmente sendo dito nas fontes.
Yin-yang seriam, na verdade, um arquétipo da realidade, um ativo outro reativo, mas não necessariamente bem e mal ou homem e mulher.
É mais uma forma de olhar para a realidade e compreendê-la pelo contraste, estabelecendo dois polos que se alternam continuamente.
É interessante, embora, como dito anteriormente, é uma forma de olhar pra a natureza estabelecendo um contraste, mas não a natureza em si - que é fluída.
Mas destaco esse conceito por conta de outra coisa... O olhar ocidental.
Para outras visões, a nuance, o não entendido, o fluído é algo muito mais fácil de lidar.
Para o olhar ocidental, se você é, logo você não é.
Se você não é homem,
Logo você é mulher.
Se você não é legível, categorizável,
Logo você é uma falha.
O erro está desde a própria concepção.
Em Dialética da Natureza, Engels fala do trabalho como algo fundacional para os seres humanos.
É
nossa ação, o que na física é chamado de "work" que, sob uma intenção,
fez com os humanos conseguissem desenvolver consciência e sua
inteligência, em diálogo com suas condições.
Dialética é a transformação pela transformação.
Um vácuo essencial em transitoriedade
Daí sempre surgirão vivências marginais a essa imposição de gênero, é um movimento natural frente a imposição de uma rigidez não natural.
O corpo quer ser livre, quer brincar
Nossa sociedade é carcereira do desejo mais puro do ser.
Para inúmeras sociedades da história, sempre foi entendido majoritariamente que haviam mais do que dois gêneros.
Recomendo se aventurar pela Wikipédia em inglês quando o assunto é outros gêneros ao longo da história devido ao amplo mostruário que há lá.
É divertido
Dá pra passar horas e horas vendo sobre outras concepções de gênero, relacionamentos, sexos, sexualidades e tudo mais.
O que nos tornou humanos, foi o esforço por ser.
Não por ser humanos.
Mas por ser.
Eu sou
Sim, eu sou não-binárie.
Mas não é isso que eu quero dizer.
Gênero é uma criação social para divisão social do trabalho.
O que eu sou na verdade é processo, confusão, mutação.
Antes eu achava que isso era incerteza,
Agora eu sei que é libertação, estética da existência.
E isso o pensamento tradicional nunca vai entender
E eu espero muito que eles não me tornem um deles.
Mesmo quando eu tiver que falar a língua deles
E usar o disfarce de um deles,
Afinal eu também preciso viver nesse mundo.
E não é fácil
Você sentir uma solidão,
uma vergonha,
um medo que não são seus.
Sabe, quando eu troquei meu prenome,
Quando eu disse meus pronomes,
Quando eu vivi outra persona no trabalho,
Quando eu duvidei que estava fazendo o certo,
Quando eu me escondi,
Eu sempre estive escrevendo minha vivência.
E eu estou aqui, traindo os meus próprios demônios.
Pode não ser o certo
E não é
Porque não há um certo,
Apenas repetição e diferença.
Recomendo assistir um filme chamado Nimona, acho que ele dialoga bem com isso tudo.
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