Não é que eu não possa, eu só não estou buscando

Eu não tive lá muitas experiências românticas e muito menos sexuais e está tudo bem.

Sabe, vira e mexe eu sinto que preciso explicar algo que, pra mim, é simples. Não no sentido de fácil, mas no sentido de claro. Eu não estou fechada à experiência. Não sou contra namoro, não sou contra vínculos alternativos como relacionamentos queerplatônicos, não sou contra sexo, nem contra nada disso. Mas também não estou atrás de nada disso agora e acho quando estive, entendo que foi para compensar outra coisa. 

Eu funciono de outra forma, sou um outro universo e as categorias tradicionais não funcionam pra mim e tudo bem, não tenho mais medo de bancar o que eu sou. 

E isso parece muito difícil de entender num mundo que organiza a vida em torno da busca por relacionamento.

Vivo no Brasil, um país conhecido por uma cultura extremamente sexualizada, com iniciações precoces, músicas, conversas e expectativas girando em torno de atração, conquista e casal. Eu nunca me senti pertencente a isso.

Não só por não sentir atração sexual, mas porque isso também nunca ocupou um lugar em mim.

Eu lembro de meu eu adolescente com muita indignação quando ouvia as músicas em alta e percebia que só havia músicas que falavam de sexo ou de amor romântico. Enquanto eu preferia muito mais músicas abstratas que mais sugeriam ideias ou confrontavam algo menos literal ou qualquer coisa assim.

Quando digo que sou assexual que dizer que sexo, pra mim, não é tabu... e nem desejo. É um dado possível da vida, que talvez aconteça, talvez não... tipo comer bolotas ou algo assim.

Não sinto urgência, curiosidade intensa, nem repulsa. Não penso sobre isso. 

E acho que eu posso sentir atração por pessoas de ambos gêneros, prefiro pessoas mais andrógenas e dissidentes de gênero como eu, mas não é regra, embora também não saiba dizer exatamente a natureza dessa atração. 

O mesmo vale para namoro. Já tive ficantes, já namorei, foram pouquíssimas vezes, mas pra mim foi muito, até demais.

E quando lembro dessas experiências, o que mais me marcou foi o descompasso. Era bom ter carinho, afeto, proximidade. Mas nunca pareceu essencial do jeito que todo mundo diz que é. E ainda mais quando você fica com pessoas que são tão distintas de você.

O que eu sinto falta, às vezes, não é de namoro nem de sexo. É de ter alguém pra papear até de madrugada, um colo, coisas do tipo. E a cultura não sabe nomear isso fora do casal. Então tudo vira “falta de alguém”.

Eu gosto da sensação da intimidade, mas não é porque eu gostei que eu vou atrás de qualquer um para ter aquela intimidade de novo, isso me parece meio... digamos... objetivista?  

O discurso dominante transforma uma experiência boa numa necessidade permanente. Se você gostou de um namoro, então deveria buscar outro. Se gostou de sexo, deveria querer mais sexo. Se gostou de companhia, deveria procurar companhia imediatamente. 

As vezes "live and let die" é o melhor até pra não deturpar o que você viveu e transformar isso em só a porta de entrada para drogas maiores e perder o valor, falo por experiência própria.

Já cansei de ver pessoas que dizem que quem não está ficando ou namorando ou enrolando com alguém está "na merda". Geralmente pensam que pessoas que viajam sozinhas, vêm filmes sozinhas, etc. também estão "na merda". Penso se essas pessoas também acham que pessoas que estão em relacionamentos aonde o outro poda o outro, atrapalha, idealiza, violenta, etc. também estão "na merda".

Eu odeio o senso comum e pessoas tão limitadas. Eu acho sim que é possível uma pessoa sozinha estar mais feliz que um casal feliz, bem como vice-versa.

Eu não sou alguém que se limita a viver experiências. Posso viver amizade, posso viver namoro, posso viver algo que nem tem nome. 

Acho que ninguém é uma ilha, mas acho que cada um tem sua própria forma de viver o amor. 

Eu não internalizei essa pressão tão grande em mim. Claro, vez ou outra, eu sinto sim que eu tô sendo a pessoa errada e deveria me adaptar pra esse modo de ser, afinal é mais provável, eu estar errada e todo mundo certo.

Mas aí eu começo a me aproximar disso e percebo que eu não tô na minha porque eu sou alguém complacente. É simplesmente porque eu me sinto melhor assim, não é uma questão tão grande assim no fim do dia e eu prefiro ser a pessoa errada mesmo.

Não é bloqueio, nem trauma, nem negação. É meu fluir natural. E tudo o que me tira desse fluir, burocratiza esse fluir, ou até nomeia com o nome errado esse fluir é, pra mim, inadmissível.

Acho que isso é também amor livre. Não precisa ser somente aquele que se guia pelos excessos.  

Ou seja não é falta que eu quero me guiar, nem por um excesso desesperado, é pelo meu fluxo. 

E como dito, acho que isso numa cultura tão amatonormativa soa como revolucionário. E também já cansei de ver o tanto de pessoas que ficam com outras não porque gostam ou querem, é mais para dar um check na lista.

Acho algo muito modernidade líquida, você consumir o outro e seguir em frente, e isso me parece ser cada vez mais a regra. 
Não é irônico que esse hiperconsumo coexista com a epidemia de solidão? 

Eu prefiro ir no meu ritmo, respeitar o meu momento e minhas prioridades, sem deixar a pressão social introjetar minhocas no meu pomar. 

E acho que mesmo estando com menos gente e cada com menos, parece que estou cada vez sendo mais. 

E assim vou levando, pode não ser o melhor, mas é o que eu escolhi e sinto ser mais coerente comigo. 

E isso é o que conta. 

Espero que os outros que estão fora do compasso como eu também percebam logo
Que não precisam se encaixar.

Quero acreditar que vocês também estão pelo mundo afora. 

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