Magia que existe
Segundo a Teoria Geral dos Sistemas, todo sistema tende à homeostase; porém, diante de um input significativo, ele pende à transformação e precisa se reconfigurar.
Nós, seres humanos, somos um biogeohistoricosociopsico-sistema aberto, em troca constante com inúmeros seres e forças. Defendo fortemente que precisamos nos esforçar, nos mover, criar atrito consciente, para não ocupar apenas uma posição passiva nessas relações. Porque, se nada fizermos, será pior... bem pior.
Nosso corpo é um ecossistema riquíssimo, e estudá-lo é tão deslumbrante quanto estudar um planeta alienígena.
O pensamento e história de qualquer sociedade é também interessantíssimo. Quase nada é tão incrível como se debruçar sobre códigos e linguagens, transformações e atores de um povo (incluindo o nosso que as vezes pensamos que sabemos, mas sob um análise crítica percebemos que só reproduzimos sem entender o porquê).
Nossa psiquê, longe de ser algo uno e parado, é um choque-rede amplo de memórias, sonhos, símbolos, fantasias, traumas, emoções, sentimentos, crenças que são muito mais do que se pode sequer imaginar. Cada pessoa guarda em si um universo profundo e único, é como se fossemos diferentes Atlântidas.
Nós somos seres que transcendem o espaço-tempo e a linha do imaginário e isso tudo, quando vivido intensamente, é a coisa mais encantadora.
Mas para o nosso sistema atual, isso não importa, é melhor estarmos presos a uma mentalidade pequena, consumo passivo, desencanto com a vida, cansaço extremo. Não somos criados para expandir no mundo, mas para se apequenar e reproduzir o sistema.
E eu acho que, dentro do possível, é preciso assumir o protagonismo.
Existe um conceito chamado "reprogramação mental" muito difundido pelos coachs e demais agentes industria da autoajuda e pseudociências de botequim. Eles são outro sintoma desse problema maior inclusive, até podem apontar para o problema real, mas oferecem falsas causas e ferramentas.
Tal como muitos pastores, repetem frases como “mude seu padrão mental e atraia coisas boas” ou “vibre para o universo”. Cobram cursos caros e, quando o resultado não vem, responsabilizam o indivíduo pelas expectativas que eles mesmos alimentaram.
Ainda assim, fazem sucesso porque as pessoas desejam isso. Se o sistema fosse justo, todos teriam garantido o direito mais básico: viver como sujeitos, e não apenas existir como engrenagens.
Resgato, então, a analogia da reprogramação mental. À luz da neurociência e da psicologia comportamental, ela pode sim ser expandida de modo sério.
Se realmente mudarmos nossa mentalidade, fazermos meditações, transformar hábitos tóxicos, elaborar metas conscientes, fazermos exercícios, cortar vínculos tóxicos, etc.
Vamos colher benefícios reais.
Mas não se trata de manifestar uma vontade universal, mas por uma recusa pessoal a estar em uma homeostase passiva.
Eu gosto de ampliar visões de espiritualidade, me definiria como uma pessoa agnóstica praticante. Passo o dia todo ouvindo e lendo ensinamentos das mais variadas fontes: iogues, taoistas, druidas, bruxistas, etc.
E para mim, pessoalmente, eu acho que tenho uma visão bem pragmatista e pouco racionalista sobre isso, se funciona e/ou me cativa então continuo como uma forma de expansão pessoal.
Vejo tudo isso exclusivamente sob a lente do desenvolvimento do ser consciente.
E isso é magia, eu mudo a realidade ao mudar quem sou.
Como falava Manoel de Barros, ao trazer a poesia para o ordinário eu faço dele mais envolvente. Talvez isso seja uma ferramenta poética de olhar pro mundo, mas isso não muda em nada os efeitos e só diz que eu sou a magista que dá vida as coisas.
No entanto, entendo que ao mudar a forma de pensar, talvez a realidade realmente se torne diferente. Mas não literalmente, mas sim num sentido pessoal, a sua forma de encarar o mundo muda, não o mundo em si.
E isso não deve ser separado do seu ambiente, Icek Ajzen fala em como o ambiente produz estímulos que se transformam em hábitos em nós. Ou seja, não é somente interno a mudança, ela precisa mudar o nosso entorno necessariamente.
Eu gosto de encantar meu mundo, não sei se encanto porque me engano tão profundamente que acredito ou se encanto porque há espaço para preencher.
Eu talvez seja hipócrita em dizer que defenda valores existencialistas e eco-humanistas baseadas no ser-com na matéria sendo que eu gosto de imaginar que sou uma bruxinha na floresta de pedra.
Mas talvez ambas coisas possam existir, ainda são relação mesmo que imaginárias, há toda uma historiografia e poética do imaginário.
Vivemos sob conceitos, o eu é um conceito e não por isso deixamos de acreditar nele. Seria incrível ousar abrir esse portal para ser o tecelão que vai desenhar os significados e não mais ser a roupa que é moldada e quantificada.
Mudar a mente não substitui destruir a máquina, mas pode nos ajudar a destruí-la.
E não morrer.
É o que espero que façamos.
Então minha crítica não vai tanto para os famigerados coachs, acredite se quiser, no fim das contas.
Eles são inofensivos num olhar estrutural;
E talvez até proponham uma provocação ou esperança para quem escuta (apesar dos pesares).
Ela vai mais para quem está parado em homeostase.
Porque essa pessoa está relegando o maior trunfo da história humana.
O trunfo da magia.
Eu defendo a posição que reencante o mundo, mas sem desnacionalizá-lo.
Mas que também não torne as pessoas tão limitadas ao ponto que elas não podem ser espirituais.
Reconhecer que o conhecimento humano é limitado não é abandonar a razão; é levá-la a sério.
Que eu possa dizer "seja feito a vossa vontade" sem entender exatamente quem é a Vida ou o Tao que me escuta.
Ou mesmo quem é a Grande-Mãe que me abraça durante minhas meditações.
Pode ser só minha mente projetando fantasias de segurança?
Talvez, mas isso é chato pra eu colocar força nisso.
Eu não é que eu ache ou não ache que existam espíritos.
É que eu acho que as árvores são muito encantadoras simplesmente por serem, sendo habitações de fadas ou não.
Não que haja chances de iguais de haver ou não haver.
Mas eu quero simplesmente entregar pro mundo
"Seja feita a vossa vontade... inclusive as fadas"
E defendo a poeticidade e o awen de ver nelas fadas. Ainda não cheguei a ver, minhas meditações e aprendizados não são suficientes para isso ainda.
E quando eu ver, eu não vou tentar racionalizar demais.
Eu gosto bastante do pensamento do estoicismo também, gosto de pensar que o foco é o meu e o que eu faço
E não é do meu controle o ritmo das fadas e gotas de chuva.
Quero um mundo em que a razão não precise significar desencantamento. E o pensamento oriental consegue lidar bem com esses silêncios.
Eu acho que eu estou dizendo menos que há algo coisa e eu estou mais fluindo e fluindo.
Ou seja, sim, eu consigo sustentar que eu tenho um pézão no iluminismo de um lado
E do outro.... eu quase acredito em fadas
Meu corpo pensa, por isso dança. Minha alma também, por isso escreve. E ambos são uma coisa só, por isso descanso.
Axé pra quem é de axé, amém pra quem é de amém, awen pra quem é de awen, aguyjevete pra quem é de aguyjevete, namastê pra quem é de namastê e todos nós desfrutamos dessa experiência de estar aqui nesse momento.
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