O Nascimento do Fluxo
No meu último texto "A Morte do Indivíduo" posso ter deixado no escuro quem lê, e isso é bom, penso muito que quando não se dá algo, não se faz um limite, não se traça uma forma, abre uma oportunidade de criar, acho que é mais potente isso.
Mas também acho que às vezes esse movimento de criação pode se beneficiar mais quando se tem mais ideias das ferramentas para criar. Bom, eu não me considero ninguém importante, só alguém que ficou sentindo um vazio grande e foi atrás de mais coisas para acabar com esse vácuo e acabou lidando com mais vácuo e que por isso sabe um tanto sobre esse sentimento assombroso que é "você querer fugir, mas aonde você vai, você tá" e que quer, por isso, compartilhar para quem eventualmente ache isso algumas coisas que aprendeu.
Bom, sim o indivíduo, a identidade, não existe como essência, mas é criado. Cada sociedade (ou pessoa) elabora sua própria noção de “eu” conforme suas necessidades e condições, numa troca com o entorno.
Eu e Buda concordamos que o sofrimento existe a partir da concepção de um "algo que deve algo", mas diferente dele, ou melhor, diferente principalmente as interpretações que fazem dele (se é que ele realmente existiu), eu não acho que soltar esse aspecto de identificação singular e atingir uma paz tão profunda que não se envolve nem com prazeres, vícios e formas é sinônimo de bem viver.
Veja, Camus defende que só existimos quando nos revoltamos contra o absurdo, isso seria uma tensão permanente em apostar a viver, apesar da falta de sentido da existência. E bem, acho que precisamos, sim, de um esforço consciente para viver. Mas penso não é preciso brigar com a existência. Há sim a necessidade de impor seus limites ao mundo, pois são os traços fundamentais que o faz ser quem é.
Contudo, acho que assim como as plantas não brigam contra a natureza para existir: elas confluem a ela nos seus esforços e também nos seus intervalos, conatus, para Spinoza, não precisamos fazer da vida uma guerra, nem toda tensão vale a pena, a realidade é pura tensão desde sua concepção, fato, mas ela também é fluxo.
Acho que o meu ideal de vida reside muito em tentar achar esses fluxos, quando leio Mestre Caeiro minha imaginação vai pra esse lugar. Quando estou vivendo sem perceber, como se a vida fosse uma música e nem estivesse percebendo, quando deixo os pensamentos em segundo plano e me abro pra trocar com o mundo, aí está o fluxo.
Penso que o wu-wei, não signifique "o jeito certo de agir" como muitas pessoas do ocidente tentam traduzir, acho que esteja mais próximo de entender que não há um jeito certo de agir, mas há um jeito que está mais fluído para ser. Brigar para existir, discutir é sim importante, "o mundo" passa por cima de quem não tem voz ativa. Mas também é importante acolher e confluir. E ambas coisas coexistem.
Ser junto não é estar junto presencialmente. Sozinhe, mas parte da Existência.
A partir disso, se o indivíduo não existe, proponho uma ética ecocentrada, nutrir uma relação digna com o Todo: CNV, permacultura, se envolver e se retirar. Tornar-se quem se é e Amor Fati. Ousar ser, ousar sentir, ousar errar. Dar forma, brincar e depois deixar ir - isso tudo e muito mais é viver de verdade
Acho interessante a ideia de uma vida original que nós não nos conectamos. No anime Mushishi, os mushi representam a vida em seu estado puro e são algo fantástico de assistir, Thoreau buscou esse contato direto com a existência ao se retirar para o bosque de Walden. Existe até a chamada ecossexualidade, um termo provocativo, não literal que se trata de resgatar o sensível na natureza, a sensação de ter um pé no chão, de dormir embaixo de uma árvore como se isso trouxesse um contato mais direto com o mundo.
Estou lendo e ouvindo Nêgo Bispo e Kaka Werá e esses são sábios, xamãs, que eu, cunhã-mirim, quero ouvir. Ambos falam e encarnam uma conexão com a vida sob uma perspectiva contra-colonial e, para mim, eles estão mais perto da vida em seu estado puro por isso... acho que nós, povo colonizado, nos perdemos nisso.
Se você ama a vida, se envolve com ela, você quer que ela floresça, para tudo e para todes. É isso o que eu quero, aprender a amar, quero não revirar os olhos quando escutar essa palavra, ainda tenho esse resquício de mágoa.
Quando eu era criança, eu criei um personagem chamado Lincio, ele era minha barreira para o mundo. Ele representava a entropia absoluta, a potencia de destruição. Eu lembro que fantasiava sobre como ele acabava com tudo o que existia. Era como se ele visse a música como barulho, um quadro como tinta e, por consequência, a vida como algo desprezível dado o fim natural de tudo.
Em meus exercícios mentais eu tento me convencer de outra coisa, que se tivesse todo o poder eu não acabaria com todo o movimento porque doí, que a arte não é só sua parte física, mas um portal mágico que faz com que nos permite vivenciar mundos e que a vida não é um erro, mas um espaço de criação.
Eu queria mesmo é ser o tio Iroh. Me apaziguar, conseguir manifestar tudo aquilo que acho certo e fluir com graça e paz, estou no processo disso (embora mais como ideal do que como algo possível).
Então sim, a entropia é uma lei do universo. Tudo que é vida um dia não vai deixar nem vestígios.
E apesar disso, diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, eu, tudo o que existe, nós, vivemos; não contra isso, mas junto a isso.
Fluir na vida, mesmo que esteja ruim, é um ato profundo de amor com o universo. E um vazio pode ser interpretado como um buraco ou como um espaço. Espero que você consiga criar a sua forma de ver.
Aguyjevete!
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