Por que não sou anarquista?

Não é surpresa para ninguém que eu me considero marxista-leninista e ecossocialista.

Mas, ao invés de começar defendendo esse posicionamento de forma direta, prefiro fazer um caminho diferente.

Durante muito tempo eu me considerei anarquista. Em parte porque sempre achei atraente estar naquilo que é menos aceito, menos normativo, mais marginal. Mas, honestamente, o que realmente me atraía no anarquismo não era só a estética ou a rebeldia. Era a convicção de que essa é, em essência, a forma como a sociedade deveria se organizar.

O mundo é uma teia. Nós somos uma teia. Um fluxo em constante relação e expansão. Sendo assim, por que a sociedade não deveria funcionar dessa forma também?

O livro Ajuda Mútua: Um Fator da Evolução, de Kropotkin, foi fundamental para mim, nele é mostrado que, tanto historicamente quanto biologicamente, o que permitiu a sobrevivência das espécies não foi a competição pura, mas o apoio mútuo. Essa ideia sempre me marcou.

E isso em tudo, pense nas redes de fios que ligam a internet, pense no Linux, pense nos sinais de satélite, pense em nossa sociedade agindo. Tudo é uma grande teia e a propriedade é uma tentativa de negar esse fluxo.

Claro, poderia ser dito que o capital é justamente isso, fluxo e que pode coexistir com a propriedade privada. 

E é, pode. Não só pode como vai porque a natureza das coisas é a coexistência.
No entanto, os frutos disso serão individuais, o que é uma contradição, dado que o trabalho é social.
Fora que o capital age para além das vontades individuais, se expandindo mesmo com limites claros como recursos finitos e necessitando disso para se manter.

É ilógico, defender esse sistema que não se baseia na lógica, mas na contínua exploração.

Pensar uma sociedade organizada a partir de uma lógica de bem comum é, assim, inevitavelmente sedutor. Algo próximo das utopias anarquistas e muito presente no imaginário solarpunk. Futuros comunitários, harmônicos, quase sempre florais.

Um mundo onde o gênero não é uma prisão, onde as pessoas são livres para se expressar e existir. Onde não há modelos rígidos de relacionamento, ou pelo menos não como conhecemos hoje. Onde a tecnologia existe em harmonia com a natureza. Essa vibe, no geral.

Mas eu percebi algo importante. Eu não preciso do solarpunk. E, sendo sincero, nem sei se isso é punk de verdade.

O punk não nasce da harmonia perfeita. Ele nasce da falha, do ruído, do detrito.

Eu admiro as utopias. Dentro do anarquismo há várias muito interessantes que sei, de William Morris a Ursula Le Guin. E historicamente, o anarquismo construiu experiências incríveis e esteve presente no cotidiano e em todos eventos extraordinários da classe trabalhadora e teve muito do seu papel apagado por isso.

Negar o futuro capitalista e tentar construir outro é punk? É. Mas em que medida o solarpunk não acaba virando um colonialismo do nosso imaginário, uma ideia de futuro limpa demais, distante demais da materialidade que vivemos no presente?

Seria até demais dizer que vejo-o muitas vezes como greenwash que nasce da ânsia de termos uma utopia harmônica com a natureza? Não me assustaria ver até ecofascistas surgindo e alegando que essa é a estética que defendem como o verdadeiro símbolo de progresso.

Eu não quero uma estética pronta e padronizada de futuro. Eu quero algo material. Algo que seja planejado, democratizado, plural e ecológico, mas enraizado na realidade. E isso eu aprendo com povos indígenas, com práticas históricas da América Latina e com outros modelos que já existiram ou ainda existem. 

E sei que o solarpunk já faz isso em muitas de suas vertentes, mas a provocação é outra: 

O futuro não está nos sonhos, está no que fazemos agora honrando nossa história.
Isso é punk.

Voltando ao anarquismo,

Antes de apresentar minha divergência atual, é preciso dizer com clareza que o anarquismo esteve historicamente no lugar correto. Nas massas, no underground, no movimento marginal. Sempre oferecendo espaço para criação coletiva.

Anarquistas do século XX já lidavam melhor com a inclusão de minorias sociais do que muitos marxistas jamais lidarão. O anarquismo é crucial para os movimentos marginais, para a cultura alternativa e para a criação de novos modos práticos de vida.

E sua ênfase na liberdade com princípio, e não um fim a ser chegado junto a seu diálogo com a autodeterminação profunda é algo que eu também preciso elogiar.  

Durante muito tempo, o comunismo foi visto como o rival direto do capitalismo. A pessoa que buscava autonomia e liberdade como um ideal ou experiência dificilmente iria para o comunismo. Ia para o anarquismo.

Ainda assim, não me considero anarquista. Não porque acho que o seus valores estão errados, mas por conta do que a própria história aponta.

A ideia de retirar o dono da fábrica e deixá-la sob autogestão dos trabalhadores é, para mim, correta. Esse é o horizonte desejável para ambas perspectivas comunistas.

O problema não está no objetivo, mas nas condições materiais em que esse objetivo tenta se sustentar.

Os donos das outras fábricas ao redor não vão aceitar isso. Eles detêm poder econômico, político e militar. Eles se organizam em Estados, em blocos, em exércitos, em alianças internacionais. Eles invadem, sabotam, isolam e retomam à força aquilo que os trabalhadores conquistam. Se preciso, sem dúvidas usarão até bomba atômica.

É aqui que, ao meu ver, o anarquismo esbarra em um limite sério. Ele parte de uma leitura correta da sociedade como rede, como fluxo, como apoio mútuo, mas subestima a violência organizada que existe fora dessa rede.

A autogestão isolada, sem um nível de coordenação central e defesa coletiva, vira uma experiência frágil diante de um mundo ainda governado pela centralização de poder.

Eu sei, houve grandes territórios anarquistas como Makhnovtchina e algumas regiões da Espanha durante sua guerra civil que se sobreviveram por um tempo. Mas nos dias de hoje, com nossa atual tecnologia, eu realmente desconfio que isso se manteria.

Eu reconheço o Estado como uma grande coisa que precisa ser superada. A nossa história e o nosso imaginário é sequestrado por esse nêmesis. Concordo com os anarquistas, ele serve para limitação e, sob seus moldes atuais, ele é produto do capitalismo e instrumento da sua manutenção.

No entanto, o Estado, enquanto forma histórica, também concentra algo que não pode ser ignorado: capacidade de coordenação, de planejamento quase que militar.

Esses elementos não são neutros, mas podem ser disputados. E, sim, tudo isso é pura contradição, usar o Estado como ferramenta de guerra para acabar com ele mesmo.

O Estado é isso, produzir e delimitar em escala industrial e a palavra é realmente contradição ao dizer que isso pode e deve ser usado a favor dos revolucionários que querem superá-lo. 

Mas isso não é ideia minha, mas de Lenin, que defende o Estado operário como algo transitório que precisa necessariamente definhar. Ele não é um fim em si mesmo, é um meio histórico. 

Para mim, inclusive, esse é um dos grandes erros da Revolução Russa. A tomada do poder não foi acompanhada pela criação profunda de uma cultura revolucionária viva, nem pela formação contínua de um sujeito revolucionário ativo.

A revolução venceu militarmente, mas não conseguiu transformar de maneira suficiente a consciência cotidiana. Preconceitos históricos, hierarquias sociais e burocracias não foram devidamente enfrentadas. Isso aparece muito na população da Rússia atual ou demais países ex-socialistas do bloco soviético. 

Durante o processo revolucionário, formar uma população participativa, politicamente ativa e consciente do seu papel histórico não pode ser algo secundário. Não basta administrar o poder em nome do povo. É preciso criar as condições para que o povo aprenda a exercê-lo e, no limite, a não precisar mais dele.

O definhar do Estado não acontece por decreto. Ele acontece por prática, por educação política, por participação real, por conflito e por erro coletivo.

Ou seja, a revolução não termina quando o Estado é tomado, na verdade, essa é só uma etapa inicial, ela precisa continuar muito além disso, tal qual na Revolução Francesa.

Vejo traços dessa preocupação, com todas as contradições e limites, em países socialistas atuais como Cuba e Coreia do Norte, onde ainda existe algum grau de participação direta, identidade coletiva e envolvimento político cotidiano da população. Vejo também tentativas semelhantes em alguns processos latino-americanos, com diferentes graus de sucesso e fracasso.

É nesse ponto que eu me coloco hoje. Não como alguém que rejeita o anarquismo, mas como alguém que o reconhece como uma fonte indispensável de crítica, imaginação e prática libertária. O anarquismo oferece ferramentas fundamentais para pensarmos a autogestão, a horizontalidade, a liberdade como princípio vivido e não como promessa distante.

Mas acredito que, como disse, o rival histórico do capitalismo é o marxismo-leninismo e não acho que isso acontece por acaso, ele enfatiza a necessidade de defesa organizada e com a compreensão de que o capital não será superado apenas pela boa vontade ou pela ética do apoio mútuo.

A tarefa, para mim, não é escolher entre liberdade ou organização, entre autogestão ou planejamento. Isso porque a URSS também defendia a autodeterminação e, principalmente no começo, também geminou de uma cultura libertária.

A tarefa é sustentar essa tensão sem romantizá-la, sem negá-la e sem fugir da responsabilidade histórica que ela impõe.

Mao Zedong desenvolveu sua teoria de duas linhas para falar justamente disso. A China, ao meu ver, é um país que também deixa a desejar uma politização da sua cultura e do sujeito e possui muitos problemas sérios para além do trauma da Revolução Cultural

No entanto, é, sem dúvidas, o país que tem mais se destacado globalmente nos últimos tempos muito pelas vantagens de ter uma organização estatal.  

Agora se formos falar do ideal.... aí camaradas, ficaremos horas e horas falando dos problemas nas revoluções, ainda mais que tenho me preocupado em pautas ecológicas e pela educação integral crítica do sujeito. 

Então problemas sempre terão para pensarmos, a questão é que não podemos deixar eles nos impedirem de ver progresso nas experiências que ousaram hackear, ainda que com muitas limitações, a máquina.

Por fim, não é um ataque aos camaradas anarquistas ou a demais que possam tomar algo que disse pra si, mas uma provocação. Quem sabe as sínteses que ainda surgirão, isso não está no controle de ninguém. Até lá, sigamos com nossas práxis e nosso apoio mútuo em conjunto e também em ruído porque isso, meus caros, 

Isso é punk. 

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