Ishitara
Ele avança.
O chão estala sob os pés.
A lâmina corta o ar com violência.
Ishitara não se move.
Ela está sentada, pernas cruzadas, olhos fechados.
Como uma vela ardente diante dele.
O golpe atravessa seu corpo.
Não há impacto.
Não há resistência.
A lâmina passa como se cortasse o calor acima de uma fogueira.
No instante do atravessar, a arma começa a avermelhar.
O punho dele arde.
Ishitara abre os olhos.
Não há nenhuma reação em seu olhar.
Apenas visão.
Ela pega o cachimbo ao lado, acende com a própria respiração - sem gesto, apenas intenção - e traga.
A brasa no fornilho pulsa como um coração.
Ela exala.
A fumaça se espalha lenta, densa, silenciosa.
As tochas ao redor se apagam.
As lanternas morrem.
Até o luar parece engolido.
Escuridão.
No centro da névoa, uma silhueta começa a se delinear,
não feita de chamas violentas,
mas de um fogo baixo, constante, quase aconchegante.
A voz dela surge de todos os lados e de lugar nenhum:
- O que quer?
Ele responde de forma ofegante:
- Quero acabar com a destruição. Quero acabar com o fogo.
- O fogo não é destruição - disse ela -
Isso é uma interpretação que fazem dele.
A destruição poderia nascer da água, da terra, do ar…
ou do medo.
- O que é o fogo para você? - ele pergunta.
A forma incandescente começa a se desfazer.
A silhueta se dilui na névoa.
A voz agora soa próxima, quase humana:
- Nada.
A névoa some.
As luzes retornam.
Ishitara está novamente sentada.
A vela queima tranquila.
Talvez tenha sido tudo da sua imaginação.
Ele não entendeu muito bem, mas algo o desconcerta mais do que a sua dor nas mãos:
Ela não estava se defendendo.
Ela não podia ser ferida.
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