A vida não é uma delícia... infelizmente
Eu gostava muito daquele desenho, Aggretsuko, eu via todo dia quando chegava do trabalho.
Mas, sei lá sabe, quando ele parou de ser sobre o cotidiano de uma jovem adulta frustrada que queria só largar o trabalho, mas não podia,
Ele se perdeu pra mim.
Tem episódios que eram sobre milionários, tramas políticas, idols...
Eu gostava do mínimo porque era quase como se eu me visse lá
Porém, é, terminei o desenho mesmo assim, fazer o quê?
Sabe, eu não gosto do meu trabalho
Nem da minha cidade
E as vezes, de nada na verdade.
Sabe quando os gregos fizeram o mito de Sísifo, eu sinto que Camus dedicou pra mim.
A vida moderna pra mim é esse saco aí mesmo.
É repetitiva, é chata, é burocrática, amarga.
Eu até tenho desejos, mas procuro não me perder demais neles porque provavelmente a vida vai frustrar ou não vai realizar e tudo mais... e eu tenho preguiça.
Ainda assim, os desejos são meus e eu guardo eles com cuidado.
Não sei sabe, quando as pessoas falam de sonhos... eu fico um tanto à parte.
Eu sou profe de história e não gosto muito não.
Mas eu preciso trabalhar, pelo menos eu que escolhi o emprego.
Eu suporto esse trabalho.
Evito ficar pensando "ah você faria isso resto da vida?"
Porque, sinceramente, o que existe é o que existe.
E no presente, é isso o que tem pra pagar meu café.
Sêneca dizia: a vida não é uma delícia
Acho um porre acordar todo dia,
Sentir a solidão diária, ou os pensamentos acelerados
Mas as coisas são o que são.
Nesse empurrar de pedra eu acho melhor eu curtir,
Ou ver uma série que entretém um tanto, ou olhar pro telhado
Do que me iludir que vai acontecer um capítulo na minha vida onde vai chegar um bilionário ou uma idol de j-pop para mudar tudo.
Seria cômodo, seria irreal.
Mas na prática ia ser tipo Solanin:
O Taneda pede pra sair do emprego
E no outro dia ele não sabe mais como pagar as contas.
Tem sempre o dia 2 depois da realização.
Eu não vou ser como uma Cinderela
Que vive na espera
De uma fada para tirar ela.
É irônico pensar que na adolescência você lê Kafka, Dostoiévski e afins.
E acha que não vai só repetir a função que a vida vai te impor.
E agora eu acho que isso é o mais perto de liberdade que tem.
"Aqui eu só estou fazendo minha função"
"Da porta pra fora eu sou diferente" (Ben Stiller sabe muito)
Sim, é isso.
Eu não sou profe de história,
Eu faço aula de história
Honestamente, foi mal pro povo do grupo da escola.
Mas não, não vou desejar feliz aniversário pra vocês no grupo da escola
E nem vou fingir que somos amigos,
male-male conhecidos.
Eu não gosto do meu trabalho? Sim.
Mas não pelo trabalho, ele é mais ou menos. Mais pra menos.
É outra coisa, é uma questão interna ligada ao existir e performar
Mas não é ódio no sentido vontade ativa
É um ódio mais tanto faz e meio sei lá.
Tipo Sísifo, Prometeu, ou esses demais pobres criaturas.
C'est la vie! Que será, será!
O presente é tudo o que há e isso não é consolo.
Talvez seja até um castigo.
Mas eu também não vou ficar chorando pelo o que poderia ser.
Bem queria ser budista e achar que isso é a saída.
Mas ao invés disso acho que é um respiro até voltar à maquina.
O mundo tá todo errado e eu também tô.
E assim erramos tudo junto.
Erro é o resultado esperado.
A vida é esse mistério sensível e estranho que você erra tentando errar
As vezes eu queria que tudo só explodisse.
Parece meio libertador, não sei porquê.
Como se aliviasse todas as tensões logo.
No entanto, até o big crunch hipotético, vamos indo!
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