As estrelas são só estrelas

Antes eu queria o mundo, o palco.

Agora me sinto bem vivendo.

Fico feliz por Isaac Asimov e Philip K. Dick, Clarice Lispector e Nelson Oliveira e tantos outros já terem escrito. Porque às vezes eu não quero falar. Quero debruçar, sentir e sentir mesmo. Sentir o sensorial das texturas, e descrever horas e horas a asperidade doce do tecido que trás um conforto como se me retomasse a uma manta que tive na infância, a temperatura da noite, o jeito que a costura me atravessa e evoca algo.

A vida às vezes é você copiar um vídeo de Clair de Lune porque não sabe ler uma partitura e ver e ler livros de pessoas ao invés de fazer.

Não só porque eles treinaram muito mais que você. E nem porque você nem precisa ler a partitura, as vezes você só quer reproduzir e ficar brisando por você.

Mas porque você cria enquanto lê, você cria. Você cria enquanto escuta, enquanto lembra, enquanto sente, enquanto imagina.

Talvez a gente tenha sido convencido de que existir de forma menos ativa é uma forma menor de existência. Como se contemplar fosse inferior a produzir. Como se viver algo não bastasse sem transformar aquilo em conteúdo, arte, conceito ou legado.

Mas eu sou emissária da deusa Introspecção e acho que sentir também é participação. É na verdade, o que dá sentido a se fazer também.

E ouso ainda dizer, nenhuma posição tem mais valor que a outra, o autor não é superior ao leitor, ambos criam. Como uma música que você canta e ouve de forma totalmente única na história do universo.

Claro, as vezes fazemos coisas pra nós, eu escrevo esse blog pra mim. Mas ainda assim, ao lançar pro mundo, eu sinto que estou também compartilhando, por isso não faço de qualquer jeito, preciso dar um mínimo de coerência e correção ortográfica... o mínimo.

Sabe, eu sinto bem não sendo grande. Porque eu estou vivendo e sentindo. Os dias no trabalho têm passado e não mais tão pesado. E também tirei de mim o fardo de criar o tempo inteiro. Não preciso transformar toda tristeza em poesia, toda ideia em projeto, toda experiência em identidade.

E assim, só resta viver.

Eu lembro do final de Night in the Woods, quando a Bea diz que nós traçamos as constelações e que as estrelas são só estrelas.

E na DLC Lost Constellation é contada a história de uma constelação, e em certo momento é dito que aquela história não era real, mas que durante a experiência ela foi tão real quanto qualquer outra coisa.

Estrelas que inspiram civilizações, poetas e astrofísicos... e astrólogos.
Não sabem que nós pensamos tanto nelas.

Lembro também da cena das baleias em Boyhood. Acho que o pai fala pro menino que a magia é tão real quanto as baleias, porque provavelmente ele nunca vai ver uma baleia na vida.

Eu me recuso a reduzir tudo a meras representações e sensações de forma mecanicista. Existe algo profundamente real na experiência subjetiva. Não importa se veio de uma pessoa, de um pensamento, de um sonho ou de uma ficção.

Philip K. Dick falava algo parecido quando tratava da capacidade humana de sentir como uma sobreposição à realidade em si. Como se aquilo que sentimos não fosse apenas um reflexo do mundo, mas também uma camada dele.

O mundo não é menos verdadeiro por ser experimentado. Nós somos parte dele.

Sim,
O Jovem Mestre Alberto Caeiro tinha razão

"O único mistério é haver quem pense no mistério".

Assim, eu não exatamente estou dizendo que eu não quero criar, eu estou dizendo que eu já estou criando na medida que estou vivendo e experienciando. 

O mundo moderno é regido pela ideia do produzir, mas não do fluir. E eu acho que o que faço vem mais desse outro plano. E tenho certeza que não estou só.

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