Materialismo Sensível

O sensível, estético e sensorial é o que há de mais vivo e religioso pra mim 

E por isso, eu desço do ser-político e digo:
Odeio transformar o mundo em tese.

Eu escrevo porque eu lembro da sensação
De quando criança entrar na piscina e sentir o cheiro do cloro
E de quando saia tremia de frio
E do olhar encantado ao ver um filme pela primeira vez

Eu sou do subjetivo, eu não quero viver as coisas como se fossem dados

Por isso eu tenho um pé na escrita de histórias como falei antes
Acho que meu corpo, meu ser e tudo é pequeno demais
E pra sair pra fora e vazar pra eu aguentar
E por isso escrevo sem que ninguém saiba
Não porque eu queira esconder também
Mas tudo segue seu caminho 

Eu vejo uma certa magia em estar aqui
Agora escrevendo essas coisas apertando teclas
E que elas aparecem tão exatas na tela
E que eu consigo entender o registro dela
E outras pessoas também
O ser humano nunca se satisfaz, se existisse magia, não seria magia
Ele se entediaria com ela  

As vezes eu penso no meu lugar social
E não quero lutar por um social de forma abstrata
Mas sim perceber que esses encantos possuem limites e bases ideológicas
E eu estou aqui, nesse meio de tanta miséria
E todas as pessoas estão
E tudo está
E tudo é

Nós que inventamos regras
Que delimitam o que é aqui e o que é lá
E assim criamos a desigualdade  
E também a singularidade

Uma brincadeira 

E eu não vou solucionar isso e nem ninguém 
É uma luta absurda e até abstrata 
Tal qual a escrita que mina 
aos poucos os limites da materialidade
Então penso que ao expandir minhas percepções
Eu acabo encontrando outras percepções
E aí conversamos e fazemos contatos
E se eu estiver com sentidos afiados 
Irei querer mudar o mundo
E se não estiver
Eles vão se afiar 
A consciência nasce da experiência encarnada

Eu adoro cappuccino de pózinho
Mesmo que o açúcar dele seja uma forma de indústria me viciar
E me matar 
E por algum motivo eu acho isso encantador
Como isso foi produzido
E como eu digiro isso 

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