O Iluminismo não acabou
Na faculdade lembro-me que o primeiro texto apresentado para nós foi um projeto educacional de Condorcet, mediado pela Carlota Boto.
Impossível esquecer como todos os alunos ficaram felizes ao ler alguém escrevendo sobre uma educação que parecia para nós tão avançada. Impossível também o choque quando nosso professor deu uma dura lição sobre anacronismo e como estávamos lendo um texto de mais de 200 anos como se fosse algo feito para os dias de hoje.
Mais a frente no curso, entretanto, outra ideia apareceu para nós: o iluminismo falhou e, por consequência, a razão também falhou e essa certeza cresceu após a Segunda Guerra Mundial.
E penso que embora o sentimento de crise na modernidade possa ser real, eu acredito que o argumento é um pouco mais perigoso.
Esse tipo de argumento acredito que é uma interpretação da interpretação da interpretação da ideia de razão instrumental do Adorno.
A clássica "o mundo ficou racional demais e por isso nazismo"E eu defendo que essa ideia está equivocada desde sua convicção.
A começar pelo fato que o nacionalismo ufanista dialoga muito mais com o romantismo do que com o iluminismo.
Inclusive, a rigor, Kant, o mais famoso dos iluministas, iria defender o radical contrário. Para ele a moralidade não pode depender simplesmente das consequências desejadas; a máxima da ação precisa poder ser submetida à razão prática e ao dever.
Se mentir é algo imoral, logo você não pode mentir nem se for para salvar alguém, pois você estaria manipulando princípios o que, para ele, é profundamente antiético.
Imagine só se ele ouvisse que supostamente autores anti-modernidade o usaram como referência para justificar matar.
Mas entenda, para não irmos para nenhum extremo.
Frankenstein, de Mary Shelley, funciona como uma interessante tese romântica sobre a "sombra da razão": o horror que nasce quando a técnica se desprende da ética e do humano que busca controlar a natureza.
Por isso, eu também preciso fugir da dicotomia simplista que rotula o iluminismo como bem e o romantismo como mal.
Na verdade, ironicamente, eu acho que pensar sobre esses assunto é algo bem iluminista e vejo que Kant faz algo similar na Crítica da Razão Prática buscando não desvencilhar ética de conhecimento.
A história não é uma linha reta, mas uma bagunça.
O próprio Romantismo pode ser interpretado como algo mais revolucionário como faz Michael Löwy e acho totalmente coerente.
O que incomoda são os reducionismos e a interpretação banal de suas filosofias o verdadeiro problema.
Do tipo "Se um povo indígena não possui tempo passado em sua língua, logo eles não têm a ideia de passado".
Isso é uma interpretação rasteira e etnocêntrica, embora não signifique que eles têm a mesma visão de tempo que as pessoas ocidentais, todavia.
E veja, isso na prática, o que quero dizer, é que eu não acho que é preciso negar a modernidade, mas sim supera-la até porque todas as tentativas de abandona-la acabam voltando pra ela.
Por exemplo, a teoria queer que me é muito caro.
Para cada uma das sociedades humanas, em cada uma delas terá diferentes modelos de família, performance de gênero, sexualidade, etc. E, mesmo que sejam próximas, certamente terão particularidades.
E a teoria queer nasce quando as pessoas estavam presas e não poderiam fluir como gostariam.
E eu entendo que é possível formar como: "a razão instrumental criou categorias imaginárias de gênero e sexualidade como forma de enquadrar o mundo"
Mas eu vejo isso de outra forma.
Para mim, não é racional sustentar gênero com base em tradição e penso que liberdade para se expressar é algo profundamente caro aos valores modernos. Acho na verdade que pessoas marginalizadas são pessoas que não tem seus direitos compridos na prática e quem está errado não são elas por não se encaixarem e sim a sociedade que não conseguiu cumprir o que garante cumprir "todos são iguais perante a lei".
A exemplo de Preciado, "a categoria de gênero é mais que uma construção, é uma prisão da subjetividade".
E eu não defendo a ideia que valores não podem mudar, o oposto disso, reconhecer que a razão é limitada pelas experiências e amarras culturais não é invalida-la, mas localizar e compreender a própria razão justamente porque ela dialoga com seu ambiente e condições.
E, ainda assim, eu não preciso dizer que há múltiplas racionalidades distintas que criam mundos diferentes.
A interpretação é diferente, o Mundo é o mesmo, similar a ideia kantiana sobre númeno e fenômeno, embora sobre outros termos.
Muito disso se deve a uma necessidade de superação daquele modelo de sociedade
Mas a dura ironia é que nunca chegou esse modernidade, como descobri no primeiro período do curso de História.
A ideia de uma humanidade e direitos universais não é algo do passado, na verdade é algo do presente.
Penso assim, a não consolidação do "Novo Homem" ipsis-litteris não é um problema, é o resultado de uma construção histórica que envolve acúmulo de capital, colonialismo e luta de classes.
E acredito assim que é preciso avançar esse projeto, não nega-lo, não recua-lo.
Eu acredito que, na América Latina isso é ainda mais evidente do que na Europa.
De Bolívar à Toussaint, de Che Guevara à Mariátegui, muitos progressos e ideias já foram implementadas e também desmantelados.
Ao meu ver, o socialismo científico é justamente aquele que avança o projeto para buscar superar ele de fato e, dentro desse paradigma, ele já criou as próprias condições para sua superação e isso não é ser teleológico e sim construir uma análise de conjuntura.
Até porque, cai entre nós, como diria Mark Fisher, "é mais fácil pensar no fim do mundo que no fim do capitalismo"
E como parte do que gosto de fazer nesse blog, vale lembra uma coisa. Muito é dito que o Iluminismo foi o movimento social que bateu o último prego no caixão da bruxaria, marcando o inicio da modernidade.
Contudo, vale lembrar, que talvez o iluminismo e a ciência moderna sejam muito mais uma continuidade do que uma ruptura. Quer dizer o Sapere Aude (ouse saber) do iluminismo também dialogava com a feitiçaria, ordens secretas e a alquimia contemporânea.
Dizem que o iluminismo desencanta o mundo, mas eu vejo que ele foi muito mais encantador e o próprio símbolo dele, de trazer a luz, é esse espírito contestador. Claro, no processo histórico isso não se comprovou tal qual idealizado e não vai, defendo o paradigma materialista.
Assim o iluminismo não acabou, ele só começou, é preciso tomar a luz para nós e iluminar o futuro e radicaliza-lo...
E para não soar exatamente triunfante e grandioso demais (romântico) é preciso também entender que sempre vai faltar e falhar e não é sobre grandes ideias e grandes humanos.
Mas pessoas limitadas por seu momento, e isso é ainda mais belo e humano.
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