O Iluminismo não acabou
Na faculdade lembro-me que o primeiro texto apresentado para nós foi um projeto educacional de Condorcet, mediado pela Carlota Boto.
Impossível esquecer como todos os alunos ficaram felizes ao ler alguém escrevendo sobre uma educação que parecia para nós tão avançada. Impossível também o choque quando nosso professor deu uma dura lição sobre anacronismo e como estávamos lendo um texto de mais de 200 anos como se fosse algo feito para os dias de hoje.
Mais a frente no curso, foi dito pra nós que o sentimento que Iluminismo falhou e, por consequência, a razão falhou cresceu após a Segunda Guerra Mundial.
E isso é verdade, o sentimento, não o argumento.
Quer dizer, o nacionalismo ufanista não é uma cria do Iluminismo, mas do Romantismo, seu contraponto após a Revolução Francesa, que criou o Iluminismo como uma construção posterior.
Frankenstein, de Mary Shelley, funciona como uma tese romântica sobre a "sombra da racionalidade": o horror que nasce quando a técnica se desprende da ética e do humano.
Por isso, é preciso fugir da dicotomia simplista que rotula o Iluminismo como bem e o Romantismo como mal.
A história não é uma linha reta, mas uma bagunça.
O próprio Romantismo pode ser interpretado como algo mais proletário como faz Michael Löwy.
O que incomoda são os reducionismos e a interpretação banal de suas filosofias o verdadeiro problema.
Penso que o pai de todos esses, Nietzsche, é o maior filosofo pós-iluminismo justamente por destruir a marteladas o universalismo. Contudo, a banalização de seu pensamento (e de seus sucessores) muitas vezes descamba para um relativismo perigoso ou até solipsismo.
Na faculdade, ouvimos argumentos repetidos a exaustão do tipo "Se um povo indígena não possui tempo passado em sua língua, logo eles não têm a ideia de passado".
Isso é uma interpretação rasteira e, ironicamente, falta conhecimento (iluminismo) que virou um maneirismo genérico.
E veja, isso não significa descartar nada, mas na verdade ter o crivo iluminista para compreender o mundo.
Tomamos, por exemplo, a Teoria Queer que me é muito caro.
O Iluminismo já reconhecia a importância de conquistar direitos femininos, mas a Teoria Queer, a exemplo de Preciado, vai além ao dizer que "a categoria de gênero é mais que uma construção, é uma prisão da subjetividade".
Isso não é nem de longe um argumento anti-iluminista e na verdade é profundamente racional e possível de ver. Reconhecer que a racionalidade é uma racionalidade limitada pelas experiências e amarras culturais não é limitar a racionalidade, mas localizar ela.
Se emancipar a sociedade for um projeto, a consequência mais iluminista é, ao meu ver, a emancipação mais profunda, a emancipação do eu, do nós, do ser, dos animais, de tudo. A crítica queer é perfeitamente compatível com um projeto racional de emancipação.
Mas isso não significa excluir nossa parte somática, a vontade e outras dimensões humanas, justamente porque não existe "A Razão", pois ela é sempre construída, mas isso também não significa que ela é relativa como se o idioma mudasse a realidade.
Eu defendo o humanismo radical, ecossocialismo. Me nutro de tudo e me expando nisso, bell hooks, Nego Bispo, Engels, Krenak entre tantos e tantos.
Penso, assim, que o mesmo espanto com a não-criação do "Novo Homem" com o Iluminismo (ou com a criação no papel e, só no papel, desse) ainda se faz presente. As ideias já foram levantadas e não é sobre implementa-las, penso que é mais sobre a práxis de media-las com a realidade.
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