Pessoas Autenticas

Se eu tivesse algo como santos (ou talvez demônios) diria que sou temente a pessoas como José Mojica Marins, Zé Celso e Erik Satie.

Sei lá. Todos eles me parecem pessoas que definiram a própria existência como poucos.

Satie, em particular, é quem mais me atrai.

Quando se veste como um aristocrata e vai às reuniões do partido socialista.

Quando escreve nas partituras coisas como:
“toque leve como uma pluma”.

Quando acusado de fazer "músicas sem forma", ele compõe “músicas em formato de pêra”.

Quando as vanguardas europeias faziam músicas cada vez mais complexas, ele iria para músicas que por vezes eram feitas para passar despercebidas. 

E fora alguém delicado e irônico, introvertido e silencioso, mas isso por si só era de uma potência tão, mas tão gigante que as vezes poucos viram. 

Eu sinto que ele encarna algo que eu acho fascinante, sabe.

E Lou Reed e The Velvet Underground talvez sejam um dos maiores exemplos disso tudo. Não à toa parecem pais espirituais do punk, do shoegaze, do glam, do noise, do lo-fi e de metade da música estranha que veio depois.

Todos eles, para mim, representam pessoas autênticas, que mostram outras rotas possíveis de ser e agir no mundo. Admiro não só a excentricidade, mas a virtù de banca-la nesse mundo que produz massivamente uma subjetividade incrivelmente chata. 

Não digo que eles são perfeitos, o contrário na verdade, são todos totalmente enlameados, não há nada de puro neles. 

Algo que não passa apenas por olhar para os próprios horrores, mas por assumir a própria potência criadora dentro deles.

A ideia de resgatar a criança e deixar ela brincar na vida.

Não uma infância ingênua, mas aquela parte do ser que ainda experimenta e age no mundo com vontade.

E quando eu falo agir eu também falo sobre não-agir. Sobre descansar, sobre estar, sobre seguir o fluxo, produzindo ou não. 

Nietzsche anunciava isso, acho que todo esquisito é meio filho dele. 

Sinto uma conexão profunda com isso: Deixar essa criança interior finalmente sair para brincar no mundo.

Talvez isso também seja (e é) o que Foucault chamou de estética da existência, transformar a vida em arte e arte em vida.

É algo simples ainda assim, algo como: se sentir frio esquente, se quiser ser abraçade compre uma pelúcia.

Algo assim que preciso sempre me relembrar por outras vozes. 

E Sartre diz sobre a má-fé que as vezes temos de querer renegar nossa participação e agência na criação do que acontece conosco.

Quando escolhemos todo o universo escolhe, inevitavelmente. 

Eu só preciso me lembrar. 

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