Pobre são os demônios
O Maligno, Coisa-Ruim, Sete-Peles, Satanás, Zoiúdo, Capeta
Todes sabem quem é o dito cujo
No entanto, quando falamos nomes mais "formais"
Diabo, Lúcifer, Asmodeus, Semiasa, Samael, Bafomé, etc.
Percebe-se que todos esses apontam para coisas totalmente diferentes e por uma colagem histórica foram unidos para falar de um "vilão único".
Por exemplo, originalmente, Satanás não era um nome próprio, mas um cargo: o Ha-Satan ("O Acusador" ou "O Caluniador"). No Antigo Testamento, ele era um anjo da corte divina, uma espécie de promotor que atuava com o aval de Deus para testar a fidelidade dos fiéis, como se observa no Livro de Jó.
Já Bafomé exemplifica a demonização do "outro" político e religioso; acredita-se ser uma deturpação de Maomé (Mahomet), termo utilizado pela Inquisição para acusar os Cavaleiros Templários de traição (na verdade foi muito uma acusação da Igreja Católica para manter o poder central em si e não nos emergentes Templários).
Essa unificação de diferentes nomes em um só ser ser tem raízes profundas no apócrifo Livro de Enoque, primeira obra que aparece revolta de anjos contra Deus que os fazem decair como demônios (criaturas intermediarias de escala inferior)
Mas foi a obra O Paraíso Perdido, de John Milton, que selou o destino dessa narrativa na literatura ocidental. Ironicamente, ao tentar descrever a queda, Milton humanizou Lúcifer.
Ele criou um rebelde dotado de uma psicologia complexa que, em vez de apenas personificar a maldade, expressava o desejo político de não servir a uma ordem absoluta, mas de governar o seu próprio destino. Sabe-se que anjos não tinham, ou não deveriam ter, vontade própria, apenas obedecer. Para românticos como William Blake, o Diabo tornou-se o primeiro rebelde da história, e muito da estética da rebeldia moderna descende dessa imagem do "anjo insurgente".
E de fato, a figura cristalizada do Diabo surge de um caldo cultural denso: as formulações de Agostinho sobre o Mal Absoluto, elementos do Maniqueísmo (afinal, em Enoque, jamais um Anjo conseguiria sequer sonhar em rivalizar com Deus, mas a criação do Mal faz isso ser possivel) e a apropriação visual de deuses corníferos como Pã e Cernunnos.
O cristianismo inclusive não depende exclusivamente de Cristo ou do judaísmo, suas bases são um mosaico que inclui o pensamento de Paulo, zoroatrismo persa, orfismo, platonismo, adornos romanos, pensamento grego-romano, etc. Inclusive culminando em interpolações posteriores de muitas fontes incluindo narrativas, como o Inferno de Dante.
Historicamente, o monoteísmo judeu é uma construção relativamente tardia. O Deus de Israel, YHWH, não foi o único deus cultuado pelos hebreus; o Antigo Testamento ainda guarda resquícios de um politeísmo que se tornou monolatria e, só depois, monoteísmo. Esse processo foi impulsionado pela elite do "Senhor da Guerra", especialmente durante a Reforma de Josias no século VII a.C., que buscou centralizar o culto em Jerusalém e apagar a memória de outros deuses cultuados outrora incluindo deuses cananeus como El, Baal (que ainda é muito forte inclusive na Bíblia) e a deusa Astarte.Como Jung diz, aquilo que tentamos apagar, volta mais forte, mas como um aspecto sombrio.
Joga-se a sexualidade, a força de vontade, a libertação feminina, tudo isso e mais pra o lado sombrio e volta como Súcubos.
Ou até, numa vertente mais radical, joga-se o animismo e a vontade de potência e vem a castração e o medo do "mundo" e suas intenções malignas e espirituais.
O mesmo movimento aconteceu na expansão cristã após a cristianização do Império Romano e quando o cristianismo ganha uma forma especifica (ou seja persegue as outras vertentes cristãs) no ocidente (faço esse recorte porque estou falando da hegemonia europeia dominante).
Fico imaginando na história, os deuses antigos, antes pomposos e adorados, degenerados em demônios cheios de grotesco do imaginário medieval... e do contemporâneo.
Então por que se segue assim se isso não está nem na Bíblia e vem do imaginário fortemente baseado em livros? Por conveniência e porque religiões não são baseadas em argumentos racionais, mas em fé, ou seja, continuidade simbólica.
Darwin explica, o cristianismo sobrevive porque é bem adaptado e se muta bem em suas derivações, a Igreja evangélica consegue bem se adaptar ao contexto moderno.
E também porque é difícil difundir e falar esse tipo de coisa e encontrar um crente preparado para ouvir. Somos criado num contexto muito mais religioso que racional, falo como alguém que atua em sala de aula.
Diabo é sempre o outro, o intragável. Usando termo meio focaultiano, é uma tecnologia de fronteira clara, foi assim desde a institucionalização do cristianismo e é assim até hoje.
No Brasil, diabo é as religiões de matriz africana, a "ideologia de gênero" ou qualquer coisa que o grupo cristão quiser criar para simplificar a realidade.
E isso, é literalmente a função da ideia do diabo desde de sua origem como símbolo maniqueísta e ante-pagão. Tornar o outro mal e fortalecer o poder burocrático da instituição Igreja e seu poder simbólico.
Nada mais que isso.
E sim, não quero fazer uma leitura apocaliptica disso, sou de formação superior de história, sei muito bem que existem apropriações, santos populares, igrejas que misturaram influências africanas, bruxaria meio sincretizada e idealizada e sem base histórica muito sólida de alguns movimentos new age.
Também considero que chamar coisas de diabólicas vem muito mais de uma tentativa humana de organizar seus medos com o repertório que possui.
Não é um julgamento moral que quis fazer, foi na verdade uma genealogia da figura dos demônios que quero fazer, não para demonizar ninguém, porque pobre são os demônios que são criações humanas tão, mas tão mal vistas que nem fizeram nada para tal. Tudo foram só os humanos externalizando seus medos e aspectos sombrios, só os humanos.
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