Vida.
Eram destaques sobre animais, arvores e comidas meio cottagecore
De uns tempos para cá, venho sentindo uma mudança na forma como enxergo a vida.
Por muito tempo, parece que a vida esteve muito ligada à espera.
Esperar alguém chegar. Esperar carinho. Esperar alguma coisa acontecer para que eu finalmente pudesse sentir que estava vivendo de verdade. Os grandes objetivos também pareciam carregar um peso enorme: ter determinada coisa, chegar a determinado lugar, me tornar determinada pessoa.
Hoje ainda tenho vontades para o futuro. Quero ter um apartamento cheio de plantas, talvez um BYD, tocar com minha banda, ser cada vez mais andrógina e femine, ganhar mais através do mestrado, lançar um livro, dançar balé, aprender cada vez mais sobre fitoterapia, talvez ir a grandes shows e começar a entrar em comunidades de coisas que tenham a ver comigo. Talvez me especializar mais na bruxaria.
Mas alguma coisa mudou na relação que tenho com esses desejos.
Eles já não parecem condições para que a minha vida comece.
São apenas especulações dado o natural movimento de rotação de mim.
Talvez essa seja a palavra que mais combina com o que tenho sentido seja aquela que gosto: nutrir.
Tenho estado mais sozinhe. Bem mais sozinhe do que antes. Mas, curiosamente, não consigo enxergar isso necessariamente como algo ruim.
Estou fazendo exercício. Meditando. Cuidando de mim. Tenho criado pequenas formas de estar comigo. Às vezes passo um óleo essencial em mim mesma, simplesmente porque quero. E depois me levanto.
Sem choro.
Essa frase parece pequena, mas para mim ela significa muito.
Durante muito tempo, "sem choro" parecia algo dito por homens feridos e musculosos para dizer que não choram porque precisam parecer fortes.Agora eu acho que mudei minha visão, principalmente dos homens feridos musculosos, eu acho que eu consigo reconhecer eles tem um ponto valioso também.
As vezes o carinho parecia ser uma coisa que precisava vir de fora. Mas talvez ele nasça de dentro.
Amizades, encontros, comunidades, conexões são uma forma de nutrir, o fertilizante essencial. E existe a possibilidade de conhecer outras pessoas, e isso me interessa. Às vezes alguns amigos me chamam para jogar. Algumas vezes eu aceito; outras, penso sobre isso e percebo que não gostaria.
Então recuso.
E não acontece nenhum grande drama.
Não penso que estou desperdiçando uma oportunidade de ser amade. Não sinto que preciso aceitar qualquer companhia porque, caso contrário, ficarei sozinhe.
Eu venho, na verdade, crescendo para essa direção.
Tantos projetos que venho fazendo e fazendo para mim, para crescer e desabrochar. Mas isso não é solidão, todos esses processos, diretamente ou não, passam por pessoas.
E existe aquela máxima de Vinícius de Morais que “o homem que diz sou não é, porque quem é mesmo não diz”.E isso não é birra. Não é segredo. Não é uma tentativa de parecer misterioso.
É simplesmente sacralização.
Às vezes, transformar imediatamente uma experiência em algo para os outros verem parece até uma espécie de profanação. Algumas coisas são minhas. Algumas experiências têm uma intimidade que parece diminuir quando eu as transformo em trivialidade pública.
Talvez eu esteja começando a descobrir Deus em minhas ações, não sei se é excesso de bruxaria e meditação isso, mas é mais ou menos a forma como consigo externalizar.
Todo dia, às vezes, acordo pensando que é dia de trabalho. Durante muito tempo talvez eu tivesse interpretado isso como algo ruim. Agora tenho percebido de outra maneira.
Não necessariamente porque o trabalho se tornou a coisa mais importante da minha vida, mas porque ele parece ter sido integrado naturalmente à minha rotina.
Não preciso mais acordar e brigar mentalmente com a existência dele.
Ele está ali.
Assim como estão minhas outras coisas.
O trabalho, a música, o exercício, a meditação, meus estudos, minhas vontades futuras, minha espiritualidade, meu corpo, minha solidão, minhas amizades.
Eu estou em todas elas.
E, ao mesmo tempo, todas elas parecem ser a mesma coisa.
Eu.
Eu sinto que se eu morrer agora eu não falhei, eu não sinto que foi algo abatido antes de desabrochar.
Eu sinto mais como se pudesse morrer a qualquer momento e o que comprova quem eu era não era o que eu fiz, mas o que eu estava fazendo mesmo quando ninguém estava vendo.
E que, enquanto algumas coisas acontecem, eu me pego pensando, nossa queria que aquela pessoa visse isso, queria que outra pessoa estivesse comigo nessa fase, porque ainda espero, ainda desejo, ainda quero.
E acho que essa contradição também vai morrer comigo.
Penso que é levantar, cuidar das minhas plantas metafóricas e literais, trabalhar, fazer música, aprender alguma coisa nova, recusar um convite quando não quero ir e, em algum outro dia, aceitar um convite porque quero.
Sem transformar nada disso em uma prova.
Eu acho doido que quando comecei a ser mais "Eu" parece que as coisas mudaram, pessoas se afastaram e outras não, mas recuaram um tanto. Acredito que é porque eu construí relações baseadas em ceder muito ao outro e agora que meu padrão está querendo mudar, o mundo muda comigo.
Eu penso que a "Vida." não é somente plantasOu é,
Se tudo for plantas e comidas cottagecore. Deixo essa pasta aberta.
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